quarta-feira, novembro 22, 2006

A DEPENDÊNCIA DE DEUS: UM ESTUDO NAS BEM-AVENTURANÇAS. (PARTE I)


Texto Base: Mateus 5: 1 - 12



Introdução

A bem-aventurança é o início do sermão do monte, sermão este que Cristo anuncia logo após a chamada dos discípulos. A sua conotação é lançar os fundamentos da vida cristã, é como se Cristo estivesse dizendo: Serás meu discípulo? Então ouça o que irá acontecer em e com você.

Quando se narra as bem-aventuranças Cristo está revelando-se como o prometido de Deus, o redentor do seu povo, o esperado pelo povo, o anunciado pelos profetas, isto é, o messias. Sendo então está mensagem em muito ligada ao texto de Isaías 61: 1 – 3, o messias marcaria um novo tempo onde o reino de Deus seria promulgado, os oprimidos pelo diabo seriam libertos, os envergonhados seriam exaltados, os que estavam em trevas verão a luz, os que estavam tristes serão alegres, os que choravam serão consolados e aqueles que estavam com vestes de tristezas (rasgadas) teriam vestes novas. Cristo traz um novo modelo de vida para as ovelhas do seu rebanho.

Esta mensagem não tem caráter triunfalista para o cumprimento total somente agora, existem aspectos que se cumpriram cabalmente no Escathon. O triunfo desta mensagem é a libertação daqueles que estavam cativos. Estes que foram alvos desta mensagem não foram salvos e libertos pelo seu próprio poder, observe que, estes são dependentes do que Deus operou e sem Ele nada somos e nada podemos fazer. Este é o aspecto do seu triunfo,

I. Bem-Aventurados os Pobres de Espírito.

A primeira bem-aventurança é marcada por muitas interpretações equivocadas, como exemplo quero citar aqueles que interpretam como sendo os pobres literalmente. Se fosse assim seria a exclusão daqueles que se encontram em abastança, e está abastança só poderia ser punido caso desenvolve-se a desigualdade e a opressão ao próximo. A palavra usada para pobres é: Ptochós (vocábulo grego) que pode ser entendida tanto por pobres como por humilde.

1.1. Quem são os Pobres.

O conceito de pobreza e humildade é entendido como pequenez, fraqueza, dependentes e contristados. “A regra de modéstia, de não escolher nas refeições o primeiro lugar mas o último (ver Provérbios 25:6ss), expressa para Jesus a necessidade da humildade para aquele que quer entrar no Reino de Deus (Lucas 14: 10). Deus dá o seu reino só àqueles que não se gabam de suas próprias ações, mas antes esperam tudo humildemente dele e sabem que eles mesmos são servos inúteis (Lucas 17: 7 – 10). Os que se justificam a si mesmos não podem encontrar a justificação, mas somente os que se humilham perante Deus com coração contrito (Lucas 18: 9 – 14).”[1]

Esta condição imposta por Cristo qualifica os pertencentes ao seu reino e os identifica em caráter. Ser pobre e humilde é ser dependente da graça e favor divino, aqueles que pensam herdar a vida por mérito próprio serão decepcionados e herdarão a morte, pois a vida é uma dádiva impagável ao homem e somente Cristo pode pagar no lugar de pecadores. Veja o comportamento que pode identificar na prática os humildes e pobres de espírito:
· Submissos;
· Desprendido;
· Dependentes e
· Servos.

Um exemplo da dependência é citado em Mateus 21: 31 e 32, dizendo que publicanos e meretrizes precederiam os religiosos no reino dos céus, pois estes haviam crido na mensagem enquanto os religiosos estiveram com o coração endurecido.Veja que Jesus usa duas classes de pessoas desmerecidas pelos homens mas, que abriam suas casas, vidas e corações para as boas novas do evangelho. A humildade está refletida em estar de ouvidos atentos e se sujeitarem a vontade do Pai, enquanto a pobreza esta ligada a miséria de coração, miséria espiritual que aguarda em Deus o seu consolo.

Outro exemplo é o de Lucas 18: 9 – 14, onde o comportamento do fariseu e do publicano são comparados:

Fariseu: Orava de si para si; Qualificava-se superior; Desprezava o próximo; Exaltava as suas obras;
Publicano: Orava ao longe; Portava-se reverentemente; Clamava o favor divino; Reconhecia sua pecaminosidade;

A intenção de Cristo era a de coloca-los em seu devido lugar, e esta parábola tinha o intuito de falar a cerca da confiança em si e o demérito para com o próximo. No fim do texto Cristo revela quem saiu daquele momento justificado, claro, o publicano, pois havia reconhecido a graça e clamado pelo favor de Deus.

Semelhante aos fariseus existe hoje um grupo de cristãos que se acham os donos do mundo, e o senhor até sobre Deus. No uso de palavras imperativas, ousam dar ordem a Deus, como se o colocando contra a parede. Ousam reivindicar direitos e clamarem por restituição. Semelhante ao publicano existe um grupo de pessoas que vem a Deus como Senhor Soberano e que mediante o seu favor e graça é que são justificados, se humilham diante da poderosa mão de Deus e só tem motivo de gratidão.

1.2. A relação pobreza e reino dos céus.

Os pobres e humildes herdarão o reino dos céus, está é a promessa. Mas a pergunta é: Qual a relação? Em primeiro lugar o reino dos céus é governado pelo Senhor da Glória; em segundo lugar a entrada neste reino está vinculada a conversão a Cristo; em terceiro lugar ninguém herdará o reino por sua própria paga e nem como recompensa da sua boa conduta. A relação é Dependente de Deus, reino de Deus; não há espaço para a glória humana e sim para a glória de Deus, porque tudo vem D’Ele e é para Ele.

Os pobres humilham-se para que Cristo seja exaltado e diminuem para que Cristo apareça, a sua vida é Cristocentrica, não existindo espaço para o egoísmo. Os humildes reconhecem a glória de Deus, o exaltam como Senhor e tem prazer em servi-lo. Os valores do reino penetram seu coração e a ansiedade da vida da lugar a paz que vem do alto (Mateus 6: 25 – 34). Há uma certeza inabalável da providência de Deus para a vida Diária, o seu coração não esta no acumulo de bens.

1.3. Sendo alvo da graça de Deus.

Estes que são desprovidos de mérito próprio foram envolvidos pela graça perdoadora e salvadora revelada em Cristo. Os seus pecados foram removidos porque através da morte do justo, estes que eram injustos e tinham como destinos à morte e as trevas (Efésios 2: 1 – 10) agora são parte do reino. A obra que os salva é a de Cristo e foi consumada na Cruz.

Lembre-se que uma definição básica de graça é: favor imeresível. Está dádiva de Deus só pode ser recebida e não adquirida pelo homem[2]. Observe alguns exemplos onde podemos ver a graça de Deus em nossas vidas:
· Certeza da vida eterna;
· Perdão dos pecados;
· Santidade e
· Justificação.

Deus nos concedeu tudo isto no amado. Se formos encontrados em Cristo, sendo ovelhas do seu pastoreio temos a vida e a segurança da vida eterna. N’Ele está consumado todo o plano de Deus para a nossa redenção.

II. Bem-Aventurados os que Choram.

No texto bíblico a expressão chorar é literal, aqueles que choram ou que estão inconsoláveis podem expressar este sentimento em ações de descontentamento ou puro desespero. Uma expressão que pode trazer para perto a realidade deste choro é: “clamor em prantos”. O clamor pode ser uma invocação por socorro de modo desesperado, expressando a angustia e a necessidade real da intervenção divina. Ninguém clama para algo real em total quietude, a inquietude é a marca do clamor, podendo ser expresso na alma ou em atitudes externas.

O povo de Deus tinha um motivo para chorar, chorar pela depravação de uma geração religiosa corrupta, chorar pelos filhos que andavam atrás de falsos mestres, chorar pela calamidade social (alguns grupos viviam a exclusão da sociedade, exemplo: Coxos, cegos, leprosos, os oprimidos e etc.) Este choro seria inconsolável caso Deus não intervise na realidade humana, o homem não pode consolar a si mesmo pois ele não possui o refrigério para a alma. Alguns homens e mulheres do nosso tempo podem estar aguardando o consolo de situações como:
· Um filho desviado;
· Um marido agressor;
· Uma família oprimida;
· Uma doença incurável;
· Sentimentos destruídos;
Estes sabem que não podem consolar a si mesmo, se desviam os seus olhos do problema, somente omitem a realidade, se empenham força em resolve-lo, percebem que vai alem de suas forças. Mas, o consolo não vem para aquele que espera no homem, ou no acaso e sim para aqueles que esperam no Senhor e conhecem o poder do seu redentor.

2.1. Qual o sentido do termo chorar[3]?

O sentido é: “Lamentar, prantear (...) entristecer-se com uma profunda tristeza que toma conta de todo ser de tal maneira que não pode ser oculta.”[4] Um exemplo desta tristeza encontra-se em 2Samuel 1: 1 – 16, onde Davi chora pela morte de Saul e Jônatas. O choro de Ana em 1 Samuel 1: 4 – 13, Deus havia fechado a sua madre e ela clamava do seu intimo (na sua alma) e desejava o consolo que só podia vir do Senhor.

Às vezes choramos como Davi, por algo que se perdeu, ele tinha perdido um amigo e o rei a quem tanto estimava e havia poupado a vida. O seu choro veio acompanhado do rasgar as vestes e do jejum, Davi estava condoído pelo povo de Israel pois estes tinham perecido diante dos filisteus. Homens íntegros e de caráter apurado não desejam o mal ao próximo, o seu comportamento é de chorar com os que choram e de alegrar-se na chegada do consolo.

Uma certeza que devemos ter é que o choro pode durar algum tempo, mas, o socorro do alto nos da a paz, trazendo de volta a quietude. Em meio ao choro, em quem confiamos? O Salmo 20 diz que alguns confiam nos homens e na força bélica que o cerca, mas os que nasceram de Deus esperam N’Ele.

2.2. A relação choro e consolo. (Isaías 49:13 e 52: 9 – 10)

A relação choro e consolo possui um intermediário, aquele que é o prometido das nações, que venceu a morte e triunfou sobre principados e potestades. Isaías fala que este é o grande motivo do nosso consolo, pois Deus enviou o seu ungido e Ele com seu braço forte livrou o seu povo. O convite é: Romper em cânticos. Deus removeu a tristeza e o choro trocando pela alegria da sua salvação. Deus compadece dos chorosos e a sua aflição terá fim, pois o prometido é a fonte da liberdade, N’Ele há brados de vitória.

Observe a relação que o profeta faz de: Consolo, compadecer, remissão e salvação. Tudo que Isaías fala esta ligada à pessoa do nosso Redentor, primeiro Ele é o nosso consolo[5], segundo Ele se compadece de nós[6], terceiro nos remiu[7] e quarto Ele é a nossa salvação[8]. Não importa o que tudo e todos digam, eu sou propriedade do Deus eterno, faço parte do povo santo e de uma nação escolhida.

III. Bem-Aventurados os Mansos.

A mansidão é característica imprescindível a aquele que nasceu do Espírito, sem ela não há temperança, não há longanimidade e nem domínio próprio. Ter uma vida santificada é por em prática os valores do reino de Deus. Apesar de muitos crentes conhecerem estes valores, agem como se desconhecessem.

Lembre-se que o Cristão é identificado pelo Espírito como pertencente ao reino de Deus e isto é concedido em seu Selo[9]. Você já se imaginou pertencente a alguém e ao mesmo tempo tendo um comportamento que desagrada ao seu Senhor? É isto que acontece quando ao invés de colocarmos em prática obras de mansidão, damos vazão a ira. Ser guiado pelo Espírito e abandonar a prática carnal não é um convite e sim uma ordem.

3.1. Qual o sentido do termo manso?

A mansidão tem o significado de: meigo, humilde, sem malícia e não vingador. Isto implica em uma vida com posturas bem distintas a vista no mundo. O manso não é um corrupto que justifica seu erro dizendo: Todos roubam! Não difama o próximo para ganhar uma função dentro da empresa. Não responde ofensivamente aquele que pode ter lhe agredido e nem alimenta pensamentos de mal contra outro. Ao contrário, ele é doce em suas palavras e atitudes, mostra-se seguro, mas, não intransigente, revela-se perdoador e compassivo.

“Jesus extraiu do Salmo 37:11 essa bem-aventurança. Ali, ela aponta mais na direção de uma atitude para com Deus do que de uma disposição para com o próximo. É fácil compreender erroneamente a mansidão. Algumas pessoas acham que ela descreve o homem que não possui convicções firmes, que não toma posição em favor de nenhuma causa (...) Talvez o homem secular considere que o manso não tem personalidade, vendo-o como um covarde, mas, segundo a Bíblia, isso não é ser manso. Ser manso não significa ser fraco, tímido ou medroso.”[10] Alguns confundem mansidão e covardia, sendo que elas são antagônicas.

Ser manso é ter uma postura cristã diante dos problemas da vida[11]. É não olhar para as coisas como se fossem pessoas e para as pessoas como se fossem coisas. Tudo o Cristo fez foi atitude de mansidão, o seu comportamento nunca deixou de ser exemplar, o modelo superior.

3.2. A relação mansidão e herdar a terra.

Homens íntegros reinarão com Cristo. O reinado de Cristo será um reinado de um novo comportamento sobre a face da terra (Isaías 65: 17 – 25), não haverá opressão, nem roubo, nem tristeza, nem balança infiel, o justo juiz reinará. Haverá paz no reino da criação e todos os que estiverem em Cristo reinarão com Ele. O reino do Senhor não tem fundamento em comida e bebida, mas na paz e alegria do Espírito. Todos serão mansos e o governo é comunitário.

O reino do Senhor já foi estabelecido sobre a terra com a vinda de seu filho, todos os que o segue pertence a este reino. Este reino não deve ser confundido com:
A Igreja[12];
Nem com pessoas de aparente espiritualidade;
Nem riquezas temporais.
Este reino é um reino no agora em que os salvos em Cristo participam da glória de Deus de forma testemunhal e propagam o evangelho transformador.

CONCLUSÃO.

A dependência de Deus é uma vida onde o centro é Ele, tudo o que se faz é voltado para o padrão das escrituras. Somos bem-aventurados porque temos o privilégio de pertencer, não somente a comunidade dos crentes, mas ao próprio Deus. Os independentes viverão para a sua própria ruína, são os chamados perversos.

Quando em nossa vida experimentamos o governo de Deus podemos testemunhar o quão maravilhoso é andar em seus caminhos, a tal modo que começamos a prantear diante do Senhor para que outros conheçam e vivam deste mesmo modo. Se até hoje a sua vida tem sido governada ao seu bel prazer, tenha a ousadia de entrega-la a Deus.

O justo viverá por fé!
[1] BAUER, Johannes B. Dicionário de Teologia Bíblica. p.482
[2] É uma ação monergista (de Deus para conosco) e não cinergista (eu cooperando com Deus).
[3] Os que choram seguem o exemplo do mestre pois Jesus chorou e lamentou a incredulidade do povo, o endurecer de seus corações pela mensagem do evangelho. O choro do cristão será extinguido na volta do messias.
[4] RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. p.9
[5] Esta obra de Cristo em nós nos capacita a reconhecer o seu grandioso poder, como aquele que levou o fardo e pagou o preço (expiação definitiva).
[6] Cristo tomou o nosso lugar e morreu a nossa morte. O seu amor veio através da sua ação encarnadora.
[7] Ele nos remiu, tirou de sobre nós a culpa pelo pecado e a conseqüente condenação que viria com ele.
[8] Somente o seu sangue derramado na cruz pagou o preço de nosso resgate, satisfazendo a vontade do Pai. Erramos condenados pela desobediência à lei de Deus, mas, Ele cumpriu toda a lei. A nossa salvação esta consumada.
[9] Diferente da Santificação que possui um caráter instantâneo e progressivo, o selo é um ato instantâneo e concedido na salvação.
[10] SHEDD, Russell P. A Felicidade Segundo Jesus. p.45
[11] “Os primeiros cristãos foram acusados dos crimes mais horrendos, tais como infanticídio e ateísmo. Escarnecedores espalhavam boatos de que os cristãos, durante suas reuniões fechadas, devoravam seus próprios filhos. Afinal de contas, diziam na ceia do Senhor: “Este é o meu corpo... tomai e comei”. Mas a mansidão dos santos desmentia tais tentativas de arruinar a sua reputação. Não era segredo que sustentavam viúvas e órfãos.” SHEDD, Russell P. A Felicidade Segundo Jesus. p.52
[12] A Igreja é a comunidade que se reúne em nome de Cristo, mas, dentro dela há conversos e não conversos. O que será salvo é a igreja verdadeira, vista pelos olhos do Senhor.


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